quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Pérolas da tradução de sites (1)

Amiguinhos, é impressionante como as empresas cagam e andam para a qualidade dos textos e das interfaces dos seus sites.

Vamos ver se os amáveis leitores conseguem encontrar o erro de tradução nesta página do conceituadíssimo PayPal.



Um tradutor realmente bom é aquele capaz de enxergar o "esqueleto" do texto quando sabe que se trata de uma tradução/localização. Este é um caso muito interessante, pois indica que o PayPal recorreu a uma TM (memória de tradução) "contaminada", mal aplicada, ou simplesmente a uma tradução de máquina com pós-edição feita nas coxas.

Atentem para a palavra "Declaração" (embaixo de "Detalhado"), na parte direita da captura de tela.

Ora, a página em questão serve para verificar tudo o que foi feito numa determinada conta, detalhando cada operação.

Desde que eu era criança pequena lá no Brooklin (de São Paulo, bien entendu), uma lista de atividades numa conta (bancária, de cartão de crédito, de telefone, etc.) se chama EXTRATO. Acontece que a página usa a palavra "Declaração". E aí? Terminologia nova? Não, simples e puro erro de tradução. Explico.

Em inglês, o termo usado para indicar a lista de atividades de uma conta é STATEMENT, que, em determinados contextos, pode também ser traduzido como "declaração".

Como é pule de dez que o PayPal recorre a memórias de tradução gigantescas para localizar seus sites, em algum momento o termo "statement" foi traduzido (corretamente) como "declaração" e, quando a ferramenta de CAT (Computer-Aided Translation) passou por esse termo, nem pestanejou e lascou "declaração" como um "100% Match", e isso passou batido pela revisão incompetente.

Estão vendo de onde saem muitos dos erros crassos que vemos em interfaces de sites, amiguinhos?

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Como ganhar clientes e perder dinheiro. Pergunte como.

...e tem aquela do papagaio e da loira, mas antes vou contar a da agência de tradução que recebe um job de tradução de alemão para português (texto técnico pacas, área automotiva), manda pro cliente um orçamento pelo número de palavras do TEXTO ORIGINAL e paga ao tradutor pelo número de palavras do TEXTO TRADUZIDO.

Sim, amiguinhos. É verdade. Isso existe! O cliente paga por "Abgasdrucksensor" (1 palavra) e a agência paga ao tradutor "sensor de pressão dos gases de escape" (7 palavras).

Aí, um belo dia, algum "ser iluminado" da administração vai se dar conta da besteira e soltar a solução genial: "O tradutor precisa ser mais sucinto" ou "Não vamos pagar as preposições". Não que isso tenha acontecido, mas não é difícil que saia da cabeça de algum "diministradô" de agência que nunca traduziu nem "good morning" em sua porca vida.

Isso me lembra aquela piada do caipira que morava lá em Araraquara, no tempo de amarrar cachorro com lingüiça, e na família só tinha palestrino fanático (ou seja, a época da piada é bem antiga). Um dia, o Palestra Italia ia jogar a final do campeonato, e não tinha transmissão de rádio pra lá. O caipira estava doente e mandou o filho pra São Paulo assistir ao jogo. Recomendou: "Ói qui, fio, ocê vai assisti o jogo e dispois manda um telegrama dizendo quanto foi, mais num vai gastá muito co telegrama". Terminado o jogo, o filho manda o seguinte telegrama:

"PPPP".

O pai ficou tristíssimo. O que queria dizer? "Paciência, papai, Palestra Perdeu".

(Pano rápido).

P.S.: Ah, sim, e eles fazem a mesma coisa para traduções de mandarim para português, quando o "estupro financeiro" é MUITO maior.

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Resposta a um artigo "gracioso"

O ócio da madrugada nos leva a encontrar coisas estapafúrdias por essa internê de meu Deus! Tropecei com um daqueles textinhos cagadores de regras sobre "como ser um tradutor fodástico". Tive que ler até o fim com um vidro inteiro de Plasil preventivamente deixado à mão.

Eis a estrovenga perpetrada por uma tal de Débora Isidoro. Cliquem, leiam e voltem, se não tiverem uma síncope.


Engraçado... Tenho 44 anos, sou tradutor profissional há 18 anos, amador há 30, trabalho com 8 (sim, oito) idiomas "ida e volta" (o único deles que me foi ensinado formalmente foi o russo, na antiga União Cultural Brasil-União Soviética), nunca fiz faculdade de tradução, cursinhos de especialização, nunca fiz networking (detesto contato pessoal com gente), nunca fui a congressos, palestras, workshops e outras bossas (vide item anterior), aprendi sozinho (na unha) a usar 5 ferramentas de CAT (indo para a sexta) e, hoje, poderia dar cursos sobre elas.

Tradução é escrever, mas escrever PUTAMENTE BEM (excuse my French!), coisa que pouquíssimas pessoas conseguem, porque isso vem de berço, vem da formação na primeira infância, vem das "carcadas" que pai e mãe (e alguns professores na escola primária e secundária) deram a cada calinada ortográfica ou gramatical. Cursos, escolas, palestras, networking... nada disso vale porcaria nenhuma se a base lá atrás for deficiente. É como tentar temperar na mesa aquele macarrão cuja massa é insossa. No máximo vai "dá pa cumê". Quem aprende a traduzir por meio de "técnicas" vai traduzir feito robozinho. OK, tem muito cliente que adora isso. Paciência se andam nivelando por baixo (o que permite aos "robozinhos diplomados" bradar que suas traduções são muito bem aceitas). Mas comigo essa gente não tem vez.

Tradução implica ter uma PUTA cultura geral, o que me permitiu, em 18 anos, ser PUTAMENTE elogiado traduzindo sobre uma infinidade de assuntos. Querem exemplo? Verti para o inglês e o italiano TODAS as normas técnicas e administrativas de um grande fabricante de autopeças, lá nos idos de 1998, e, abrindo o capô de um carro, não diferençar o motor do carburador. Não sei nem trocar pneu. Aliás, nem habilitado eu sou! Nunca passei na porta de uma Faculdade de Direito, mas meus clientes que pedem traduções jurídicas acham que estou mentindo quando digo que não sou nem bacharel em Direito. Enfim, não respeito tradutor especializado em um ou dois assuntos.

Quem adora estudar teoria da tradução é capaz de produzir textos belíssimos SOBRE tradução. Mas o mercado quer TRADUÇÃO, não "META-TRADUÇÃO". Com três parágrafos eu já destruí mestres e doutores em tradução que ousaram me criticar. Tradutor que se mete com teoria da tradução é que nem aquele piá balofo de prédio que aprende a jogar futebol em escolinha e, depois, papai arruma (paga) vaga num time profissional de segunda divisão.

Este parágrafo é interessante, #sqn:

"A troca de conhecimento e experiências enriquece muito o exercício da profissão e anima, provoca novas ideias e alimenta o entusiasmo, além de abrir caminho para novas amizades e atividades sociais."

No caso de tradutores verdadeiramente e naturalmente talentosos (como eu), nada disso se aplica.
  1. Eu cheguei a um ponto que não tenho absolutamente nada a aprender com ninguém, muito menos pegar "novas idéias". Traduzir é traduzir desde a época de São Jerônimo. O que muda é a ferramenta usada. Tudo o que eu quero aprender, aprendo sozinho, e com vantagem.
  2. "Novas amizades" com tradutores? Prefiro fazer cosplay de Prometeu (aos que não são chegadinhos em Mitologia Grega - e deveriam ser -, prefiro que uma águia coma meu fígado por toda a eternidade). Tradutor não é meu amigo, é meu concorrente. Mas, pensando melhor, não existe concorrente à minha altura no mercado.

Pensem em mim como um corredor velocista que entra numa maratona e consegue chegar nos 21 km em menos de meia hora e pára para descansar, enquanto o resto está lá estrebuchando. Se e quando o resto estiver chegando perto, ele dá outro "sprint" e pára a um passo da linha de chegada. Esse sou eu na tradução. Não tenho concorrentes à altura. No máximo um ou outro enchedor de saco.

Já entrei pronto no mercado. Olhando minhas traduções de quase 20 anos atrás, elas eram infinitamente melhores do que as de muito tradutor "antigão" (à época).

Mademoiselle Isidoro, após ler seu texto, veio-me à mente a seguinte imagem:


(Se não sacou a piada, procure e assista o episódio 104 da 6ª temporada de "Bob Esponja"). Podia também citar o Zeitgeist daquele conto 2081, do Kurt Vonnegut, Jr., transformado no belíssimo telefilme Harrison Bergeron, mas a humilhação seria demais para você.

Guardai para vida, pequenos gafanhotos: tradutor bom já nasce feito e faculdade e curso não forma tradutor decente. Os que saem decentes de uma faculdade já entraram nela assim.

Portanto, respondendo à pergunta do título do artigo da "coleguinha", conhecimento é de graça. Pagar por conhecimento é a mesma coisa que pagar por sexo. Sacaram?