quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Resposta a um artigo "gracioso"

O ócio da madrugada nos leva a encontrar coisas estapafúrdias por essa internê de meu Deus! Tropecei com um daqueles textinhos cagadores de regras sobre "como ser um tradutor fodástico". Tive que ler até o fim com um vidro inteiro de Plasil preventivamente deixado à mão.

Eis a estrovenga perpetrada por uma tal de Débora Isidoro. Cliquem, leiam e voltem, se não tiverem uma síncope.


Engraçado... Tenho 44 anos, sou tradutor profissional há 18 anos, amador há 30, trabalho com 8 (sim, oito) idiomas "ida e volta" (o único deles que me foi ensinado formalmente foi o russo, na antiga União Cultural Brasil-União Soviética), nunca fiz faculdade de tradução, cursinhos de especialização, nunca fiz networking (detesto contato pessoal com gente), nunca fui a congressos, palestras, workshops e outras bossas (vide item anterior), aprendi sozinho (na unha) a usar 5 ferramentas de CAT (indo para a sexta) e, hoje, poderia dar cursos sobre elas.

Tradução é escrever, mas escrever PUTAMENTE BEM (excuse my French!), coisa que pouquíssimas pessoas conseguem, porque isso vem de berço, vem da formação na primeira infância, vem das "carcadas" que pai e mãe (e alguns professores na escola primária e secundária) deram a cada calinada ortográfica ou gramatical. Cursos, escolas, palestras, networking... nada disso vale porcaria nenhuma se a base lá atrás for deficiente. É como tentar temperar na mesa aquele macarrão cuja massa é insossa. No máximo vai "dá pa cumê". Quem aprende a traduzir por meio de "técnicas" vai traduzir feito robozinho. OK, tem muito cliente que adora isso. Paciência se andam nivelando por baixo (o que permite aos "robozinhos diplomados" bradar que suas traduções são muito bem aceitas). Mas comigo essa gente não tem vez.

Tradução implica ter uma PUTA cultura geral, o que me permitiu, em 18 anos, ser PUTAMENTE elogiado traduzindo sobre uma infinidade de assuntos. Querem exemplo? Verti para o inglês e o italiano TODAS as normas técnicas e administrativas de um grande fabricante de autopeças, lá nos idos de 1998, e, abrindo o capô de um carro, não diferençar o motor do carburador. Não sei nem trocar pneu. Aliás, nem habilitado eu sou! Nunca passei na porta de uma Faculdade de Direito, mas meus clientes que pedem traduções jurídicas acham que estou mentindo quando digo que não sou nem bacharel em Direito. Enfim, não respeito tradutor especializado em um ou dois assuntos.

Quem adora estudar teoria da tradução é capaz de produzir textos belíssimos SOBRE tradução. Mas o mercado quer TRADUÇÃO, não "META-TRADUÇÃO". Com três parágrafos eu já destruí mestres e doutores em tradução que ousaram me criticar. Tradutor que se mete com teoria da tradução é que nem aquele piá balofo de prédio que aprende a jogar futebol em escolinha e, depois, papai arruma (paga) vaga num time profissional de segunda divisão.

Este parágrafo é interessante, #sqn:

"A troca de conhecimento e experiências enriquece muito o exercício da profissão e anima, provoca novas ideias e alimenta o entusiasmo, além de abrir caminho para novas amizades e atividades sociais."

No caso de tradutores verdadeiramente e naturalmente talentosos (como eu), nada disso se aplica.
  1. Eu cheguei a um ponto que não tenho absolutamente nada a aprender com ninguém, muito menos pegar "novas idéias". Traduzir é traduzir desde a época de São Jerônimo. O que muda é a ferramenta usada. Tudo o que eu quero aprender, aprendo sozinho, e com vantagem.
  2. "Novas amizades" com tradutores? Prefiro fazer cosplay de Prometeu (aos que não são chegadinhos em Mitologia Grega - e deveriam ser -, prefiro que uma águia coma meu fígado por toda a eternidade). Tradutor não é meu amigo, é meu concorrente. Mas, pensando melhor, não existe concorrente à minha altura no mercado.

Pensem em mim como um corredor velocista que entra numa maratona e consegue chegar nos 21 km em menos de meia hora e pára para descansar, enquanto o resto está lá estrebuchando. Se e quando o resto estiver chegando perto, ele dá outro "sprint" e pára a um passo da linha de chegada. Esse sou eu na tradução. Não tenho concorrentes à altura. No máximo um ou outro enchedor de saco.

Já entrei pronto no mercado. Olhando minhas traduções de quase 20 anos atrás, elas eram infinitamente melhores do que as de muito tradutor "antigão" (à época).

Mademoiselle Isidoro, após ler seu texto, veio-me à mente a seguinte imagem:


(Se não sacou a piada, procure e assista o episódio 104 da 6ª temporada de "Bob Esponja"). Podia também citar o Zeitgeist daquele conto 2081, do Kurt Vonnegut, Jr., transformado no belíssimo telefilme Harrison Bergeron, mas a humilhação seria demais para você.

Guardai para vida, pequenos gafanhotos: tradutor bom já nasce feito e faculdade e curso não forma tradutor decente. Os que saem decentes de uma faculdade já entraram nela assim.

Portanto, respondendo à pergunta do título do artigo da "coleguinha", conhecimento é de graça. Pagar por conhecimento é a mesma coisa que pagar por sexo. Sacaram?

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