segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Tipinhos Inúteis da Tradução (1): O Especialista

Estou descobrindo cada dia mais que tenho fortíssimas tendências masoquistas. Me inscrevo voluntariamente em grupos de tradução, tradutores e afins no Facebook, sabendo que serei exposto a coisas que fazem (ou deveriam fazer) qualquer tradutor decente espumar de raiva ou infartar.


Me inscrevi esses dias num grupo chamado Tradutores, Intérpretes e Curiosos, e já sou recebido com algumas "voadoras no peito". Meu masoquismo se evidencia nisso: ora, um grupo que admite "curiosos" da tradução não deve ser lá boa coisa. É aspirante a tradutor querendo dicas sobre as melhores faculdades de Tradução (falarei sobre isso em outro artigo), dicas sobre cursos de ferramentas de CAT (Computer-Aided Translation), dúvidas cretinas sobre tradução desse ou daquele termo (também discorrerei sobre isso em artigo vindouro) e outras abominações.

Nesta tarde nada estival, sou brindado com uma publicação que que me levou a inaugurar esta série "Tipinhos Inúteis da Tradução".

Leiam. Já volto.


Diante de tanta especialização, não pude me furtar a fazer uma perguntinha nada ofensiva:


Ó, Senhor, por que eu fiz essa pergunta sabendo qual seria o tipo de resposta? Mereço mil chibatadas em praça pública. Leiam e chorem:


PUTA QUE ME PARIU DE RODA NO MEIO DE UM CANAVIAL QUEIMADO AO MEIO-DIA DE UMA SEXTA-FEIRA TREZE EM QUE CHOVIA GRANIZO! MALDIÇÕES, DEMÔNIOS E SATANASES!

O que leva uma pessoa a expor publicamente, e de maneira tão vergonhosa, sua limitação profissional. Essa é mais uma criatura entre milhares de tradutores que acredita piamente que apenas neurocirurgiões podem traduzir um artigo sobre neurocirurgia do New England Journal of Medicine (aos ortopedistas seria vedada tal empreitada); que só engenheiros mecânicos podem traduzir o manual de manutenção do Honda Civic; que só um advogado especialista em Direito Societário pode traduzir os atos constitutivos de uma sociedade anônima (criminalistas, afastem-se!); e podem incluir qualquer área do conhecimento.



QUE MIL CARALHOS VOADORES BESUNTADOS DE PÓ DE VIDRO ARROMBEM MEU RABO POR DEZ DIAS SEGUIDOS!

Aprenda de uma vez por todas, sua besta quadrada! Se você sabe produzir um texto escorreito no idioma de chegada, a terminologia específica é o que menos importa! Isso se obtém em qualquer glossário razoável ou numa pesquisa básica (um nível de profundidade basta) no Google.

Esse papo de "não é minha área" é a maior desculpa de todos os tempos (e que normalmente pega direitinho os incautos) dos tradutores ineptos, que usam o vernizinho (bem transparente e fino) do conhecimento perfeito da terminologia "da área" para encobrir seu texto quase sempre sofrível.

Ao longo dos anos, diante de hordas de tradutores especialistas na tradução das especificações técnicas do parafuso superior da roda dianteira direita (se for a roda traseira esquerda, fodeu!), criei a analogia da "Torta de Liquidificador". É a analogia mais perfeita que existe. Vejam a imagem:


Acreditem vocês ou não, essa é uma torta de liquidificador de sardinha. Essa é a "torta de pobre" por excelência, aquela torta que você prepara quando chega uma visita inesperada (e demorada) no meio da tarde de sábado, trazendo uma dúzia de filhos a tiracolo, e você só tem uma mísera lata de sardinha na despensa.

O resultado é que de sardinha só tem o cheiro e um ou outro pedacinho espalhado aqui e ali no meio da massa.

Ao fim e ao cabo, caríssimos leitores, tradução é como uma torta de liquidificador de sardinha: a coesão, a "costura", o estilo do texto são a massa (90% do resultado). A terminologia especializada corresponde às faisquinhas de sardinha dispersas aqui e ali no meio da massa. E acreditem; não precisa ser chef de cuisine formado na Cordon Bleu para usar uma sardinha bem decente na torta e ela ficar bastante "comível".

Pequena biografia deste escriba para embasar o que escrevi:

Em 1997 recebi o primeiro job da minha carreira profissional. Fui contratado por uma agência para passar três meses dentro de uma empresa localizando um software bancário, nos pares inglês > português e inglês > espanhol, usando o ambiente de desenvolvimento PowerBuilder e a linguagem Visual Basic. Nem sabia o que era PowerBuilder, só tinha rudimentos de Visual Basic, e meu conhecimento sobre operações bancárias era pífio. Resultado: ELOGIOS DO CLIENTE.

Em 1998, fui contratado para passar alguns meses na fábrica de uma grande empresa de autopeças para realizar a versão português > inglês e português > italiano de todas as suas normas técnicas de fabricação, inspeção e qualidade e normas a administrativas. Não sei a diferença entre um amortecedor e o eixo cardã de um carro. Resultado: ELOGIOS DO CLIENTE e vários trabalhos solicitados por ele nos anos seguintes.

Em 1998, caiu na minha mão um trabalho de tradução alemão para português de um manual técnico de 300 páginas, em Corel Draw (!!!) de uma prensa hidráulica da Krupp. Nunca cheguei a cinco quilômetros de uma prensa hidráulica. O trabalho foi dividido com um engenheiro ALEMÃO. Resultado: MEU TEXTO FOI ELOGIADO. O DO ENGENHEIRO ALEMÃO, CRITICADO.

Em 1999, comecei a receber trabalhos de versão português > inglês de quilométricos contratos de prestação de serviços de TI e fornecimento de hardware, licitações, e quejandos. Nunca pisei numa faculdade de Direito nem tenho amigos advogados. Resultado: desde então (17 anos atrás) todo o material jurídico desse cliente é enviado para mim, tanto de tradução como de versão.

Traduzi milhões de palavras de especificações técnicas de construção civil para o Metrô, e não sei assentar um tijolo.

Traduzi diversos manuais de equipamentos médicos, catálogos de próteses, artigos científicos de Medicina, bulas de medicamentos para registro na ANVISA, e não sei prestar primeiros socorros se alguém precisar.

Acho que isso ensina à senhora Anna Carolina Romero de Menezes uma ou duas coisinhas sobre a necessidade de especialização para traduzir.

Moral da História: TRADUTOR ESPECIALISTA É TRADUTOR SEM TALENTO.