quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Sobre "traduções acadêmicas"

Num dos grupos do Facebook sobre Tradução de que participo, um dos integrantes lança uma pergunta, a qual transcrevo aqui.

"Mas e a tradução acadêmica, cadê?
Sempre que me disponho a procurar artigos ou publicações a respeito do assunto, encontro o mesmo resultado: zero publicações relevantes. No entanto, muito se fala na tradução acadêmica como uma área para tradutores iniciantes, em que o tradutor "treina" traduzindo artigos e abstracts. 
Trabalho como freelancer há mais ou menos 4 anos, e sempre me preparo para os períodos em que a demanda de traduções acadêmicas é grande porquê, ao que parece, são trabalhos rejeitados por "tradutores mais experientes". No entanto, fico um pouco confuso com este contexto.

A linguagem acadêmica não é uma linguagem fácil, e os temas abordados são bastante técnicos e específicos. Será mesmo uma demanda para o iniciante? Será esta uma área não explorada seriamente pelos profissionais da tradução? Será que aqueles abstracts absurdamente maltraduzidos não são um reflexo da não apropriação do profissional qualificado? 
O que acham sobre o assunto?"

Respondi no grupo e, agora, compartilho a resposta com o público em geral.

Vou responder em forma de "Teatro Corisco": 
- Olha, seu Andy, eu sei que o senhor tem vinte anos de experiência como tradutor profissional e traduz desde convite de casamento até manual de especificações de parafusos quadrados na Estação Espacial Internacional. Eu tenho aqui um artigo sobre infecções ginecológicas - fartamente ilustrado - pra ser traduzido do alemão para o espanhol [e sei que o senhor traduz esse par de idiomas]. O senhor poderia avaliar? 
- Claro. Deixa eu ver o material. 
[Meia hora depois, com a mesma roupa e sem tomar banho]. 
- Perfeito, seo Violétio Genciânio, avaliei o material, ele tem 25 mil palavras e o meu preço é duas dúzias de caqui e cinco mexericas madurinhas. Como o senhor me parece um sujeito legal, eu posso abater as mexericas. 
- O senhor está maluco, seu Andy? Meu orçamento para isso é no máximo três caquis e uma goiaba branca! Mais que isso não tenho como pagar. 
- Tenho certeza de que o senhor vai encontrar um aluno de Letras aí da sua Faculdade que aceitará até dois caquis e três caroços de maracujá. Desejo-lhe sorte na empreitada 
[Pano rápido].

Em seguida, complementei a resposta com um pouco mais de seriedade.

Mas agora vamos falar sério. "Tradução acadêmica" é um termo genérico tão genérico quanto "verduras", "carros" e "frutas". 
Tem a tradução acadêmica de que o aluno de graduação [de qualquer curso] precisa para poder acompanhar aulas e fazer trabalhos [era algo soez em meus plúmbeos tempos de Faculdade]. Esse aí mal tem um figo podre para pagar uma tradução profissional. 
Tem a tradução acadêmica do mestrando ou doutorando, que precisa verter os abstracts de suas dissertações ou teses para o idioma estrangeiro de prestígio de plantão. Ele tem aquela verbinha magrinha, e não está a fim de investir tanto, muito embora tenha uma caixinha pequena de morangos de Atibaia para pagar. 
Tem a tradução - que pode ser considerada acadêmica - solicitada por empresas que têm a necessidade de materiais traduzidos ou vertidos para fins de Pesquisa e Desenvolvimento, certificação ou registro de produtos, etc. Inclusive estou com um trabalho desse tipo na minha mão. Esse tipo de trabalho normalmente vai para os profissionais, porque, normalmente, a empresa dispõe de um belo pomar para pagar.

Nosso bom consulente agradeceu e fez outra pergunta.

Obrigado pela resposta, minha pergunta se trata mais especificamente dos dois primeiros contextos citados por você: a tradução para o aluno de graduação e para o aluno de mestrado e doutorado; já que o terceiro contexto já se considera o envolvimento de empresas que possuem o interesse específico no resultado destas pesquisas. 
Muitos alunos realmente não estão nem um pouco afim de "gastar" com uma tradução profissional, isso é fato, eles consideram um trabalho irrelevante. E esta concepção, acredito eu, se deve bastante ao fato da não apropriação do tradutor qualificado. Nesses dois contextos citados, você acredita então que o problema está no quanto os alunos estão dispostos a pagar? Qual a média de valor que você consideraria um valor justo para um profissional?
Prontamente redargüi:
Desde que participo de fóruns e grupos de Tradução - desde os idos de 2002 - essa pergunta sobre valor justo chega a assumir contornos de casus belli e desafios pra duelos de sabres quando levantada. Um tradutor que mora com papá-mamã e só precisa levantar uns trocados para a "baladjénha" e outras out-of-pocket expenses cobrará infinitamente menos que um tradutor experiente que paga aluguel e financiamento do seu Mitsubishi Casca-Grossa em 395 encarnações, além de pensão para a ex-posa e três remelentos. 
Também é fantasioso tomar como referência a famigerada tabela do SINTRA - e queiram o bom Deus e Santo Padre Pio de Pietrelcina que a profissão não seja regulamentada no país, senão vão criar a "Tabela da Ordem dos Tradutores do Brasil", e ai de quem cobrar meio centavo a menos ou a mais. Não sei se você tem idade suficiente para lembrar, mas quem viveu intensamente os dias do Plano Cruzado sabe o que acontece com qualquer tabelamento. Só funciona para a JUCESP [no caso de SP] porque... bem... reservo-me o direito de - por agora - não descer a lenha no conceito de TPIC. Em suma, os clientes vão fugir e precisaremos todos prestar um concurso público, armar uma banquinha de yakissoba na frente de uma... Faculdade ou dar o golpe do baú [não necessariamente nessa ordem]. 
Começando a responder: é exatamente por aí. Não adianta eu chegar na vendinha da esquina lá de Xurupita do Agreste e me meter a vender, a 75 reais a unidade, couves e nabos orgânicos plantados e colhidos em noite de lua cheia por sacerdotisas Urucumixabhagwan emprenhadas pelo deus Dziga. Todos os fregueses vão achar maravilhosas as propriedades terapêuticas [???] das referidas hortaliças, vão olhar com os olhos e lamber com a testa, mas não vão conseguir pagar. 
Só que, diferente do exemplo que dei é a seguinte, TRADUÇÃO NÃO É MERCADORIA! Um tradutor verdadeiramente profissional e decente é moralmente incapaz de trabalhar com uma "linha básica" e uma "linha premium", dependendo de quanto o freguês tem para desembolsar. E um tradutor medíocre e/ou picareta, bem... ninguém dá mais do que tem para dar. 
Pode ser que um ou outro bom tradutor abnegado e talentoso queira prestar esse serviço de utilidade pública a preços pra lá de módicos e, daqui a 300 anos, ser canonizado e ficar sentado à direita de São Jerônimo, mas isso é que nem cabeça de bacalhau e enterro de anão: dizem que existe, mas ninguém viu.
Se a discussão assumir outros contornos, volto com a continuação deste artigo.

terça-feira, 22 de agosto de 2017

Traduções de segunda-mão, agências cretinas e clientes burros (ou mal-intencionados)

...e aí que tem outra história da agência de tradução ultra-mega-pluri-multi-certificada, associada, "parceirizada", especializada, juramentada e outras bossas, que vamos aqui chamar de Blaustein Traduções e Mirongas ("fazemos qualquer negócio").

Essa agência tem os vendedores de tradução, que "tiram os pedidos" (saca, que nem loja de ferragens?) dos clientes, mas não sabem a diferença entre um material de tradução e um saco de cimento ou um cento de parafusos.

Vai daí que os vendedores de tradução recebem um material em espanhol (porque o cliente disse que era em espanhol), mas uma avaliação ainda que perfunctória (ui!) do material dá todas as indicações de que se trata de um texto já traduzido do ITALIANO para o espanhol, e o cliente quer que o texto seja traduzido para o português.

Aí temos dois cenários:

1. O cliente não tem idéia da natureza do material que tem nas mãos.

2. O cliente sabe que o material original é em italiano, mas, sabendo que o custo da tradução do italiano para o português é maior, prefere usar a tradução em espanhol para que seja feita a "tradução da tradução" (e isso sempre dá merda).

Voltando aos vendedores de tradução: como eu disse, eles não sabem a diferença (ou pouco se importam com ela) entre um texto e uma saca de feijão ou uma arroba de boi gordo, e aceitam acriticamente a palavra do cliente.

O passo seguinte da "linha de produção" são os gerentes de projeto, responsáveis por preparar o material e distribuí-lo ("alocá-lo", ô palavrinha escrota...) aos tradutores. Num mundo ideal, os gerentes de projeto deveriam ser um pouco mais afiados intelectualmente, mas não... na Blaustein Traduções e Mirongas, os gerentes de projeto são jovenzinhos (sabem aquele meu papo de "geração pós-1990"?) semi-analfabetos, também incapazes de avaliar a natureza detalhada de um projeto.

Pois muito bem: o material chega à mão do pobre tradutor (uma criatura intelectualmente bem-aquinhoada e falante tanto do espanhol quanto do italiano), que percebe de cara a mironga, mas vai em frente.

Só que chega um ponto em que um termo não faz sentido. O texto faz referência a "las brújulas del eje dentado". Ora, pipocas. Desde que o latim vulgar virou espanhol na Hispania (e desde que a palavra chegou à região), "brújula" significa "BÚSSOLA". Sim, aquele treco que aponta sempre pro norte, inventado pelos chineses. Bom, não existe contorcionismo engenheirístico por onde um eixo dentado de uma máquina descascadora possa conter uma bússola.

O tradutor marca essa incoerência, mas segue em frente (sabe aquela manha de prova de "deixar as perguntas cabeludas pro final"?). Chega um ponto do texto onde finalmente a verdade se desvela: uma lista de peças em inglês e... SIM!!! ITALIANO!!! Num determinado ponto dessa lista, aparece o seguinte:

BUSSOLA PICCOLA ECCENTRICA CONTRORULLO / CLEANING ROLLER SMALL ECCENTRIC BUSH

Ói lá, fi! "Bussola"! Em inglês, "bush". Em português, "bucha". Mas alguém (ou algum Google) se contaminou pela semelhança (e eu dou meus tomates a cortar se não foi um brasileiro picareta) que traduziu "bussola" como "brújula".

Fiz esse revolteio todo e pincei esse exemplo para ensinar uma coisa aos cretinos analfabetos das agências de tradução:

NENHUM TRADUTOR QUE SE PREZA ACEITA FAZER TRADUÇÃO DE SEGUNDA MÃO ("TRADUÇÃO DA TRADUÇÃO") PORQUE O TEXTO ORIGINAL FICA "INVISÍVEL", E NÃO EXISTE GARANTIA NENHUMA DE QUE O "ORIGINAL" QUE CHEGOU À SUA MÃO FOI TRADUZIDO DE MANEIRA CORRETA DO VERDADEIRO ORIGINAL.

terça-feira, 11 de julho de 2017

The Big Translation Degree (or Certification) Scam

If you are hiring a translator based merely on his academic background, you're playing with fire.

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I've been reading lots of articles extolling academic degrees and certificates in Translation, saying that whoever lacks these cannot be relied upon for professional translation tasks. Well, I strongly disagree with them.

There are very fine translators who lack academic background in Translation, certificates, who loathe membership to associations, but, nevertheless, have what tons of such mega-educated, certified and "membershipped" translators most often than not lack: INBORN TALENT and LIFELONG EFFORT.

I can tell that from my 20-year experience as a professional translator in Brazil: every single semester, young, high-school graduates flock by the thousands to universities and colleges that offer degrees in Translation, with little more to their name than the indigent foreign language skills acquired in their K12 years  (or in  money-grab FL schools, for that matter - "one at every corner in town to better serve you suckers").

These wannabees enter an undergrad Translation course sincerely thinking it's a "little-more-expensive-and-longer FL course - down here, only English and Spanish). Even worse, they can barely write a cohesive 500-word essay about ANY subject, even passing the college admission tests (ENEM, FUVEST, you name it) with flying colors in the mandatory essay (i.e., the quality of review and scoring by the official bodies are HIGHLY questionable, too.)

Translating means, down to nitty-gritty, being able to write REALLY well and being fond of READING (i.e., imitating the style of fine authors), which is a lifelong effort, and many young students think "Okee-dokee, my Portuguese (or FL) teacher gives me writing assignments every now and then, I return the best s*** I can, and, if I get a B- or C, that's fine." They actually hate reading and writing , or keep these activities to the bare minimum, just to barely "make the cut". "Oh, but I love translating song lyrics, maybe someday I can be a fine translator". That's the spirit.

Fast-forward, four (or so) years later: these intellectual indigents get their degrees in Translation & Interpreting, brandishing their fresh diplomas in the faces of the poor no-grads, no-certs, and making a hell of an impression on translation agency owners or direct clients, hoping to get their first professional translation jobs.

Then, when they come across a seasoned no-grad, no-cert, but highly-talented translator, able to deliver nearly perfect translations on any imaginable subject, they sneer at him, often blinding him with science, dropping names of high-profile professors, theorists, linguists, quoting Saussure and Chomsky right and left, and invoking translation theory principles, all to discredit and disqualify the battle-hardened translator.

That's the painful truth, fellas!

segunda-feira, 10 de julho de 2017

A última linha de defesa da qualidade da tradução

Por que alguns gerentes de projetos não conseguem entregar traduções de qualidade por causa de questões de custo

Amável leitor, este artigo não tomará mais de 5 minutos do seu tempo!

Se a tradução fosse um martelo, a competência lingüística seria o prego, indispensável para transmitir uma mensagem de um idioma para outro. Obviamente, os tradutores devem dominar pelo menos dois idiomas para gerar as melhores traduções que puderem. Ao mesmo tempo, os GPs (gerentes de projetos) devem ser os guardiães da qualidade de uma tradução, e é nesse aspecto que muitos gerentes de projetos tropeçam e caem.

As tarefas diárias de um gerente de projetos de tradução

O gerente de projetos tem muitas ferramentas ao seu dispor: e-mail, ferramentas de CAT (por exemplo, SDL Trados) e pelo menos uma compreensão média do seu primeiro idioma e do inglês. Sua tarefa principal é atribuir jobs, gerenciar projetos e prazos, e manter contato com clientes e fornecedores (tradutores). Porém, no meio de todas essas tarefas, eles também precisam lidar com controles administrativos, solucionar problemas e realizar avaliações de qualidade. Todas essas tarefas fazem parte das tarefas diárias de um gerente de projetos de tradução. Dependendo do porte da agência para a qual ele trabalha, outras tarefas também podem entrar na equação. Ao passo que muitos gerentes de projetos em agências de maior porte se encarregam de um determinado par de idiomas ou mesmo de um determinado cliente, os GPs de agências menores precisam, com freqüência, dar conta de mais pares de idiomas e clientes. Às vezes, eles até mesmo precisam ser os editores dos jobs que distribuem entre os tradutores: verificar e editar eles mesmos a qualidade das traduções.

Ao mesmo tempo, os avanços do mercado influenciam as tarefas cotidianas dos GPs, exigindo que eles demonstrem qualidades além daquelas que precisavam demonstrar antes. A demanda cada vez maior pela redução de preços, por exemplo, exige que eles lidem de maneira flexível com as tarefas dos projetos, ao passo que a queda das franquias para jobs de pequeno porte exige inclusive que eles traduzam sozinhos os materiais em vários idiomas, tudo para evitar que as traduções solicitadas dêem prejuízo.

Google Translate como primeiro recurso

Então, os gerentes de projetos precisam fazer malabarismo com cinco bolas, tudo para manter o nível de qualidade das suas agências e garantir a satisfação dos clientes. Na prática, isso é impossível. A pressão cada vez maior pode esgotar fisicamente e mentalmente os os GPs e deixá-los mais propensos a erros. Porém, os ingredientes da incapacidade de entregar com qualidade não são apenas extrínsecas. No mercado brasileiro, é sabido e consabido que a esmagadora maioria dos gerentes de projetos (escusadas as exceções que confirmam a regra) tem um domínio de ruim para razoável (no máximo) da língua portuguesa. Há gerentes de projetos que até recorrem à tradução automática como a do Google Translate para traduzir jobs de pequeno porte e têm a cara-de-pau de pedir a tradutores que confiram a tradução.

Mês passado, recebi de uma agência mega-certificada, associada e o escambau um e-mail cuja linha de assunto ostentava o seguinte: “Favorzinho de revisão”. O gerente de projetos escreveu assim:


A “frase” no anexo acabou sendo uma frase curta de um slide do PowerPoint. Estava na cara que o cliente (não consegui saber nem com tortura se foi o GP ou o cliente final) usou um tradutor automático para gerar as traduções. Para fazer economia (à base da porcaria), o GP pediu um "favorzinho de revisão", embora esse favorzinho pudesse ter sido pedido na forma de um job pequeno (e, talvez, ao preço da franquia). A frase original estava em alemão (idioma que traduzo), e a expressão “eine Extrawurst verlangen” estava traduzida literalmente.

Em vinte anos de carreira como tradutor profissional, recebi dezenas de pedidos semelhantes. Felizmente, já trabalhei com gerentes de projetos muito competentes, mas existe uma categoria de pessoas autointituladas “gerentes de projetos” que são a quintessência da incompetência. Às vezes, um gerente de projetos tem o desplante de enviar consultas sobre traduções já enviadas aos clientes finais. Acontece que eles usam o Google Translate para verificar a qualidade de um segmento e tenta desfazer a confusão pedindo que o tradutor explique uma determinada tradução.

Conferências de qualidade por falhas de qualidade

Vocês pensam que a coisa já está ruim o bastante? Não está. Pode piorar muito quando os gerentes de projetos são semi-analfabetos e não entendem a ortografia nem as regras gramaticais do seu próprio idioma (por falar nisso, há um adágio de caserna que reza "a tropa é o espelho do comandante", ou seja, se os gerentes de projetos da agência são semi-analfabetos, no fim das contas, eles são o espelho do dono da agência).

Sim, amável leitora, isso é ridículo, mas eu trabalho diariamente com essa realidade de gerentes de projeto totalmente carentes de conhecimento das regras gramaticais mais comezinhas. Em algumas agências nas quais os gerentes de projetos acabam sendo dublês de tradutores internos, eles chegam às raias de enviar aos clientes traduções que levariam bomba na mais básica revisão gramatical, e aqui abro parênteses.

As agências de tradução de médio porte para cima contam com um pelotão de revisores (o famoso "CQ", ou controle de qualidade) pagos a pouco mais que leite de pato, geralmente universitários semi-xucros que são a menina dos olhos de Paulo Freire, e encarregados de revisar as traduções de idiomas originais dos quais têm conhecimento abaixo de zero. 

Fecho parênteses.

Os gerentes de projetos, também semi-xucros, pensam: "bom, se o material veio do CQ, deve estar tudo certo". Essa é a receita do desastre. A que ponto de degradação chegará a qualidade das traduções se os gerentes de projeto mal sabem ortografia e, além disso, participam cada vez mais do processo de tradução por causa das questões de custo? Pensem num restaurante no qual o cozinheiro prepara um risoto que passa por um chef que padece de disgeusia e anosmia (vão no dicionário, incréus!) e, depois, segue para o cliente na mesa. É isso que acontece nas agências de tradução "de massa".

A perda de gerentes de projetos

Ser gerente de projetos não é tarefa fácil, principalmente numa agência pequena. Porém, deve ser obrigatório que um gerente de projetos domine pelo menos seu primeiro idioma e tenha um conhecimento razoável de outros idiomas dos quais é encarregado. E agora abro outro parêntese.

O mercado brasileiro de traduções é pródigo em agências que oferecem traduções "com ótimo preço e a melhor qualidade" de/para 10, 15, 20 idiomas (pense numa agência brasileira que alardeia ter recursos para realizar versões duplas de inglês para georgiano, de mandarim para tailandês, de guzerate para zapoteca do istmo...). É IMPOSSÍVEL REUNIR E TER CONTROLE SOBRE RECURSOS QUE REALMENTE DOMINEM PARES DE IDIOMAS FALADOS POR MEIA DÚZIA DE PESSOAS (NEM TODAS TRADUTORAS) NO PAÍS. Agências que adotam essa prática são picaretas, estelionatárias, safadas e sem-vergonhas! #prontofalei

Voltando,

Se um gerente de projetos tiver dificuldade no domínio de um determinado idioma, ele deve recorrer a tradutores profissionais capazes de entregar um produto final cuja qualidade seja a mais "limpa" possível. Se a verba for curta, o problema de não dominar um idioma não deve ser empurrado para os tradutores. Às vezes, perder gerentes de projetos é melhor para o setor do que manter gerentes de projetos que tentam aparentar um determinado padrão que jamais conseguirão atingi-lo. Tradutores que não conseguem entregar trabalhos com qualidade satisfatória costumam ser "limados" do quadro de fornecedores das agências (e às vezes, do mercado). Os gerentes de projeto que não quiserem seguir pelo mesmo caminho têm duas (e apenas duas) opções: dominar o(s) idioma(s) dos projetos que gerenciam ou limitar radicalmente sua participação nas traduções e no controle de qualidade.

O custo na tradução profissional



Não há dúvida de que o custo é o primeiro (se não o único) aspecto que os clientes levam em conta quando compram (sim, o termo é esse mesmo) uma tradução profissional. Por isso, as traduções vão acabar se tornando uma commodity.

O custo da tradução não é o único elemento a ser levado em conta.
Como se sabe (ou se deveria saber), o termo inglês “commodity” faz referência a um produto oferecido ao mercado sem nenhuma diferenciação qualitativa, como o açúcar, o café, o petróleo ou o suco de laranja. Em geral, um produto nasce como uma commodity, mas um produto pode, também, se tornar uma commodity se o comprador perder o interesse pelos elementos que o diferenciam. Faço agora uma pequena digressão para expor alguns dos motivos que fizeram com que a tradução se tornasse uma commodity.

Antes do início deste século, a internacionalização das empresas sempre exigia um enorme investimento em agências de tradução e, às vezes, esse investimento acabava sendo um grande prejuízo. Vivi isso na pele em 1998, quando a fabricante de autopeças Cofap foi vendida ao Grupo Fiat, e décadas de documentação técnica e administrativa em português precisaram ser vertidas para o italiano e o inglês. Fui responsável por praticamente 100% desse trabalho. Meses e meses de trabalho in company, na agência e em casa.

O alvorecer da globalização fez com que as distâncias entre diferentes partes do planeta chegassem a zero, pondo em contato populações distantes e criando infinitas oportunidade de negócios.

Isso provocou um aumento exponencial do volume de conteúdos que precisavam ser traduzidos para outros idiomas (sites, blogs, embalagens, documentação, etc.), e isso trouxe a tiracolo a explosão do número de agências de tradução e tradutores autônomos (mais ou menos) profissionais oferecendo serviços de tradução.

A recente crise econômica mundial obrigou empresas de todo o mundo a cortar fundo os custos de produção para diminuir os preços finais e manter a competitividade no novo mercado global.

Com isso, cada vez mais agências de tradução passaram a recorrer a tradutores profissionais a custos cada vez menores, mas sempre exigindo experiência, e isso deu início a uma guerra de preços no mercado de traduções, na qual o cliente escolhe a agência de traduções pelo “custo da tradução”, supondo que, e qualquer caso, a qualidade (máxima) do serviço de tradução faz parte do pacote. Obviamente, essa hipótese não tem relação alguma com a realidade, pois a escolha de um tradutor inexperiente ou pouco experiente implica preços menores a uma qualidade também menor.

Porém, como o cliente quase nunca é capaz de mensurar a defasagem existente entre a qualidade esperada e aquilo pelo que ele pagou, a tendência do momento é baixar o custo da tradução para “vender mais”.

Com isso, as traduções profissionais passaram, pouco a pouco, a ser commodities, que, como o petróleo, o café ou o açúcar, estão sendo compradas (quase) unicamente com base no “menor preço”, o que tem consequências negativas:
  • A função do tradutor profissional desaparecerá: à medida que as agências diminuem seus preços, os projetos de tradução passarão a ser distribuídos para pessoas que fazem da tradução um mero “bico” ou para novatos, e a profissão deixará de ser sustentável como atividade de dedicação integral ou por períodos suficientemente prolongados para o desenvolvimento de competências profissionais na área (de 10 a 30 anos).
  • Um tradutor experiente será cada vez mais caro: como a demanda por traduções de alta qualidade se concentrará num número constante (com tendência a diminuir) de tradutores experientes, eles ganharão o poder de aumentar suas tarifas exponencialmente.
  • Será difícil encontrar um tradutor competente e especializado: não apenas porque o número deles diminuirá, mas também porque as agências de tradução continuarão melhorando suas estratégias de marketing, e será impossível entender se a qualidade realmente tem relação com a competência do tradutor.
Uma agência de traduções séria deve ter o compromisso inflexível de atenuar o risco de que as traduções profissionais sigam a passos céleres o caminho da “comoditização” (com todas as conseqüências negativas que acabei de mencionar).

Por isso, em vez do tradicional serviço de tradução formatado para ser vendido com descontos, vendas e garantias de qualidade que são garantidas pela simples menção a um departamento de “controle de qualidade”, a agência séria deve dar aos clientes a oportunidade de escolher o nível de experiência que deseja “comprar”: dependendo da sua necessidade efetiva (por exemplo, compreensão básica, tradução literal, adaptação de um texto para outra cultura, transcriação, etc.), eles podem decidir por si mesmos quem será encarregado de traduzir seu texto, escolhendo um aluno de graduação de uma faculdade de Tradução, um tradutor júnior, um pleno, um sênior, um especialista ou um tradutor-redator, sempre de acordo com seu orçamento e a qualidade que procuram.

Por óbvio, o cliente pode encarregar a agência de escolher o nível de tradução que ele comprará. Nesse caso, ele deverá especificar o objetivo e o orçamento, deixando todo o resto a cargo da agência.

Volto agora da digressão.

Há que se dizer enfaticamente que a tradução não é de jeito nenhum uma commodity, muito pelo contrário! A rigor, muitos elementos podem fazer a diferença entre uma tradução e outra: a complexidade do texto a ser traduzido (teriam o jargão técnico, a terminologia, a sintaxe, etc. o condão de exigir competências específicas?), o assunto (um texto de marketing ou um artigo científico sobre Física Nuclear), o público-alvo (o texto será destinado a pessoas em geral, bem-informadas ou altamente competentes?), o objetivo da tradução (se existe apenas a necessidade de saber do que o texto fala, ou se o texto traduzido deverá convencer um público de outra cultura a comprar um produto ou serviço), o orçamento (basta pagar um principiante ou existe a necessidade de contar com o estilo de um tradutor competente em redação?)... e a lista pode prosseguir ad aeternum.

É evidente que o cliente tem todo o interesse de expor suas exigências e fazer escolhas que vão além do simples custo da tradução.

De resto, comprar um serviço indistinto “de qualidade ao melhor preço” pode ter conseqüências bem graves. Basta pensar no custo de reimprimir uma revista que contém uma tradução errada, ou nos custos de recuperar a confiança numa marca enfraquecida por uma mensagem equivocada, ou mesmo nos prejuízos causados por uma campanha promocional que não gerou resultados por causa da ineficácia dos seus textos. Essa lista também poderia seguir adiante ad nauseam. É por isso que os clientes não devem se aferrar jamais à simples análise do custo da tradução, mas sim perguntar-se sempre se o serviço entregue pela agência realmente está em condições de atingir os objetivos pretendidos por meio do trabalho de tradução: se a tradução for considerada um serviço que deve ser capaz de atender a um determinada exigências, o cliente perceberá que a tradução não é, de fato, uma commodity, ao contrário: as diferenças, em certos casos, podem saltar aos olhos.

terça-feira, 6 de junho de 2017

O prazo e o sal

Cum monte salis

Hoje trago ao amável leitor uma historieta bonitinha que cursinhos e faculdadezinhas (pagos e muito bem pagos) jamais lhes contarão.

Reza a lenda que, muitos e muitos séculos atrás, no longínquo e distante mês de maio de 2017, uma agência de traduções afamadíssima, certificadíssima e diplomadíssima enviou a um pobre chela das letras (que também atende pela alcunha de "tradutor"), no ocaso de uma sexta-feira, um projeto de tradução (EN-PT) de 13 mil palavras para ser entregue IMPRETERIVELMENTE (grifo e chave-de-roda necessários) às 15h00 do domingo; do contrário, terríveis maldições e castigos pecuniários se abateriam sobre o lombo do desditoso tradoperário (valei-me, Joyce!).

O valente tradutor, imbuído de insopitável ardor (xi, rimou!), lança-se à ingente tarefa e (vamos encurtar a história), com um sorriso no rosto, entrega o trabalho dentro do prazo dominical pós-prandial, piamente crendo que os responsáveis pelo recebimento do material na agência lá estariam, listos e lestos, às 15h01, para tomar em suas mãos o resultado do árduo labor tradutório.

Ledo (Ivo) engano do tresnoitado e desditoso devoto de São Jerônimo.

Nos albores do dia consagrado pelos pagãos à Lua, chega-lhe à caixa de entrada um aviso automático do serviço de transferência de arquivos (WeTransfer), informando que os denodados controladores de qualidade da agência (cuja atividade conta com a chancela de todos os órgãos certificadores da galáxia e adjacências limítrofes) haviam tido seu primeiro contato com o material (tão pontualmente entregue na véspera) ÀS QUATRO HORAS E CINQÜENTA E QUATRO MINUTOS DA MADRUGADA).

Moral da história: sempre tomem os "prazos finais e impreteríveis" exigidos pelas agências não com um grão de sal, mas com uma salina potiguar inteira.