segunda-feira, 10 de julho de 2017

O custo na tradução profissional



Não há dúvida de que o custo é o primeiro (se não o único) aspecto que os clientes levam em conta quando compram (sim, o termo é esse mesmo) uma tradução profissional. Por isso, as traduções vão acabar se tornando uma commodity.

O custo da tradução não é o único elemento a ser levado em conta.
Como se sabe (ou se deveria saber), o termo inglês “commodity” faz referência a um produto oferecido ao mercado sem nenhuma diferenciação qualitativa, como o açúcar, o café, o petróleo ou o suco de laranja. Em geral, um produto nasce como uma commodity, mas um produto pode, também, se tornar uma commodity se o comprador perder o interesse pelos elementos que o diferenciam. Faço agora uma pequena digressão para expor alguns dos motivos que fizeram com que a tradução se tornasse uma commodity.

Antes do início deste século, a internacionalização das empresas sempre exigia um enorme investimento em agências de tradução e, às vezes, esse investimento acabava sendo um grande prejuízo. Vivi isso na pele em 1998, quando a fabricante de autopeças Cofap foi vendida ao Grupo Fiat, e décadas de documentação técnica e administrativa em português precisaram ser vertidas para o italiano e o inglês. Fui responsável por praticamente 100% desse trabalho. Meses e meses de trabalho in company, na agência e em casa.

O alvorecer da globalização fez com que as distâncias entre diferentes partes do planeta chegassem a zero, pondo em contato populações distantes e criando infinitas oportunidade de negócios.

Isso provocou um aumento exponencial do volume de conteúdos que precisavam ser traduzidos para outros idiomas (sites, blogs, embalagens, documentação, etc.), e isso trouxe a tiracolo a explosão do número de agências de tradução e tradutores autônomos (mais ou menos) profissionais oferecendo serviços de tradução.

A recente crise econômica mundial obrigou empresas de todo o mundo a cortar fundo os custos de produção para diminuir os preços finais e manter a competitividade no novo mercado global.

Com isso, cada vez mais agências de tradução passaram a recorrer a tradutores profissionais a custos cada vez menores, mas sempre exigindo experiência, e isso deu início a uma guerra de preços no mercado de traduções, na qual o cliente escolhe a agência de traduções pelo “custo da tradução”, supondo que, e qualquer caso, a qualidade (máxima) do serviço de tradução faz parte do pacote. Obviamente, essa hipótese não tem relação alguma com a realidade, pois a escolha de um tradutor inexperiente ou pouco experiente implica preços menores a uma qualidade também menor.

Porém, como o cliente quase nunca é capaz de mensurar a defasagem existente entre a qualidade esperada e aquilo pelo que ele pagou, a tendência do momento é baixar o custo da tradução para “vender mais”.

Com isso, as traduções profissionais passaram, pouco a pouco, a ser commodities, que, como o petróleo, o café ou o açúcar, estão sendo compradas (quase) unicamente com base no “menor preço”, o que tem consequências negativas:
  • A função do tradutor profissional desaparecerá: à medida que as agências diminuem seus preços, os projetos de tradução passarão a ser distribuídos para pessoas que fazem da tradução um mero “bico” ou para novatos, e a profissão deixará de ser sustentável como atividade de dedicação integral ou por períodos suficientemente prolongados para o desenvolvimento de competências profissionais na área (de 10 a 30 anos).
  • Um tradutor experiente será cada vez mais caro: como a demanda por traduções de alta qualidade se concentrará num número constante (com tendência a diminuir) de tradutores experientes, eles ganharão o poder de aumentar suas tarifas exponencialmente.
  • Será difícil encontrar um tradutor competente e especializado: não apenas porque o número deles diminuirá, mas também porque as agências de tradução continuarão melhorando suas estratégias de marketing, e será impossível entender se a qualidade realmente tem relação com a competência do tradutor.
Uma agência de traduções séria deve ter o compromisso inflexível de atenuar o risco de que as traduções profissionais sigam a passos céleres o caminho da “comoditização” (com todas as conseqüências negativas que acabei de mencionar).

Por isso, em vez do tradicional serviço de tradução formatado para ser vendido com descontos, vendas e garantias de qualidade que são garantidas pela simples menção a um departamento de “controle de qualidade”, a agência séria deve dar aos clientes a oportunidade de escolher o nível de experiência que deseja “comprar”: dependendo da sua necessidade efetiva (por exemplo, compreensão básica, tradução literal, adaptação de um texto para outra cultura, transcriação, etc.), eles podem decidir por si mesmos quem será encarregado de traduzir seu texto, escolhendo um aluno de graduação de uma faculdade de Tradução, um tradutor júnior, um pleno, um sênior, um especialista ou um tradutor-redator, sempre de acordo com seu orçamento e a qualidade que procuram.

Por óbvio, o cliente pode encarregar a agência de escolher o nível de tradução que ele comprará. Nesse caso, ele deverá especificar o objetivo e o orçamento, deixando todo o resto a cargo da agência.

Volto agora da digressão.

Há que se dizer enfaticamente que a tradução não é de jeito nenhum uma commodity, muito pelo contrário! A rigor, muitos elementos podem fazer a diferença entre uma tradução e outra: a complexidade do texto a ser traduzido (teriam o jargão técnico, a terminologia, a sintaxe, etc. o condão de exigir competências específicas?), o assunto (um texto de marketing ou um artigo científico sobre Física Nuclear), o público-alvo (o texto será destinado a pessoas em geral, bem-informadas ou altamente competentes?), o objetivo da tradução (se existe apenas a necessidade de saber do que o texto fala, ou se o texto traduzido deverá convencer um público de outra cultura a comprar um produto ou serviço), o orçamento (basta pagar um principiante ou existe a necessidade de contar com o estilo de um tradutor competente em redação?)... e a lista pode prosseguir ad aeternum.

É evidente que o cliente tem todo o interesse de expor suas exigências e fazer escolhas que vão além do simples custo da tradução.

De resto, comprar um serviço indistinto “de qualidade ao melhor preço” pode ter conseqüências bem graves. Basta pensar no custo de reimprimir uma revista que contém uma tradução errada, ou nos custos de recuperar a confiança numa marca enfraquecida por uma mensagem equivocada, ou mesmo nos prejuízos causados por uma campanha promocional que não gerou resultados por causa da ineficácia dos seus textos. Essa lista também poderia seguir adiante ad nauseam. É por isso que os clientes não devem se aferrar jamais à simples análise do custo da tradução, mas sim perguntar-se sempre se o serviço entregue pela agência realmente está em condições de atingir os objetivos pretendidos por meio do trabalho de tradução: se a tradução for considerada um serviço que deve ser capaz de atender a um determinada exigências, o cliente perceberá que a tradução não é, de fato, uma commodity, ao contrário: as diferenças, em certos casos, podem saltar aos olhos.

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