segunda-feira, 10 de julho de 2017

A última linha de defesa da qualidade da tradução

Por que alguns gerentes de projetos não conseguem entregar traduções de qualidade por causa de questões de custo

Amável leitor, este artigo não tomará mais de 5 minutos do seu tempo!

Se a tradução fosse um martelo, a competência lingüística seria o prego, indispensável para transmitir uma mensagem de um idioma para outro. Obviamente, os tradutores devem dominar pelo menos dois idiomas para gerar as melhores traduções que puderem. Ao mesmo tempo, os GPs (gerentes de projetos) devem ser os guardiães da qualidade de uma tradução, e é nesse aspecto que muitos gerentes de projetos tropeçam e caem.

As tarefas diárias de um gerente de projetos de tradução

O gerente de projetos tem muitas ferramentas ao seu dispor: e-mail, ferramentas de CAT (por exemplo, SDL Trados) e pelo menos uma compreensão média do seu primeiro idioma e do inglês. Sua tarefa principal é atribuir jobs, gerenciar projetos e prazos, e manter contato com clientes e fornecedores (tradutores). Porém, no meio de todas essas tarefas, eles também precisam lidar com controles administrativos, solucionar problemas e realizar avaliações de qualidade. Todas essas tarefas fazem parte das tarefas diárias de um gerente de projetos de tradução. Dependendo do porte da agência para a qual ele trabalha, outras tarefas também podem entrar na equação. Ao passo que muitos gerentes de projetos em agências de maior porte se encarregam de um determinado par de idiomas ou mesmo de um determinado cliente, os GPs de agências menores precisam, com freqüência, dar conta de mais pares de idiomas e clientes. Às vezes, eles até mesmo precisam ser os editores dos jobs que distribuem entre os tradutores: verificar e editar eles mesmos a qualidade das traduções.

Ao mesmo tempo, os avanços do mercado influenciam as tarefas cotidianas dos GPs, exigindo que eles demonstrem qualidades além daquelas que precisavam demonstrar antes. A demanda cada vez maior pela redução de preços, por exemplo, exige que eles lidem de maneira flexível com as tarefas dos projetos, ao passo que a queda das franquias para jobs de pequeno porte exige inclusive que eles traduzam sozinhos os materiais em vários idiomas, tudo para evitar que as traduções solicitadas dêem prejuízo.

Google Translate como primeiro recurso

Então, os gerentes de projetos precisam fazer malabarismo com cinco bolas, tudo para manter o nível de qualidade das suas agências e garantir a satisfação dos clientes. Na prática, isso é impossível. A pressão cada vez maior pode esgotar fisicamente e mentalmente os os GPs e deixá-los mais propensos a erros. Porém, os ingredientes da incapacidade de entregar com qualidade não são apenas extrínsecas. No mercado brasileiro, é sabido e consabido que a esmagadora maioria dos gerentes de projetos (escusadas as exceções que confirmam a regra) tem um domínio de ruim para razoável (no máximo) da língua portuguesa. Há gerentes de projetos que até recorrem à tradução automática como a do Google Translate para traduzir jobs de pequeno porte e têm a cara-de-pau de pedir a tradutores que confiram a tradução.

Mês passado, recebi de uma agência mega-certificada, associada e o escambau um e-mail cuja linha de assunto ostentava o seguinte: “Favorzinho de revisão”. O gerente de projetos escreveu assim:


A “frase” no anexo acabou sendo uma frase curta de um slide do PowerPoint. Estava na cara que o cliente (não consegui saber nem com tortura se foi o GP ou o cliente final) usou um tradutor automático para gerar as traduções. Para fazer economia (à base da porcaria), o GP pediu um "favorzinho de revisão", embora esse favorzinho pudesse ter sido pedido na forma de um job pequeno (e, talvez, ao preço da franquia). A frase original estava em alemão (idioma que traduzo), e a expressão “eine Extrawurst verlangen” estava traduzida literalmente.

Em vinte anos de carreira como tradutor profissional, recebi dezenas de pedidos semelhantes. Felizmente, já trabalhei com gerentes de projetos muito competentes, mas existe uma categoria de pessoas autointituladas “gerentes de projetos” que são a quintessência da incompetência. Às vezes, um gerente de projetos tem o desplante de enviar consultas sobre traduções já enviadas aos clientes finais. Acontece que eles usam o Google Translate para verificar a qualidade de um segmento e tenta desfazer a confusão pedindo que o tradutor explique uma determinada tradução.

Conferências de qualidade por falhas de qualidade

Vocês pensam que a coisa já está ruim o bastante? Não está. Pode piorar muito quando os gerentes de projetos são semi-analfabetos e não entendem a ortografia nem as regras gramaticais do seu próprio idioma (por falar nisso, há um adágio de caserna que reza "a tropa é o espelho do comandante", ou seja, se os gerentes de projetos da agência são semi-analfabetos, no fim das contas, eles são o espelho do dono da agência).

Sim, amável leitora, isso é ridículo, mas eu trabalho diariamente com essa realidade de gerentes de projeto totalmente carentes de conhecimento das regras gramaticais mais comezinhas. Em algumas agências nas quais os gerentes de projetos acabam sendo dublês de tradutores internos, eles chegam às raias de enviar aos clientes traduções que levariam bomba na mais básica revisão gramatical, e aqui abro parênteses.

As agências de tradução de médio porte para cima contam com um pelotão de revisores (o famoso "CQ", ou controle de qualidade) pagos a pouco mais que leite de pato, geralmente universitários semi-xucros que são a menina dos olhos de Paulo Freire, e encarregados de revisar as traduções de idiomas originais dos quais têm conhecimento abaixo de zero. 

Fecho parênteses.

Os gerentes de projetos, também semi-xucros, pensam: "bom, se o material veio do CQ, deve estar tudo certo". Essa é a receita do desastre. A que ponto de degradação chegará a qualidade das traduções se os gerentes de projeto mal sabem ortografia e, além disso, participam cada vez mais do processo de tradução por causa das questões de custo? Pensem num restaurante no qual o cozinheiro prepara um risoto que passa por um chef que padece de disgeusia e anosmia (vão no dicionário, incréus!) e, depois, segue para o cliente na mesa. É isso que acontece nas agências de tradução "de massa".

A perda de gerentes de projetos

Ser gerente de projetos não é tarefa fácil, principalmente numa agência pequena. Porém, deve ser obrigatório que um gerente de projetos domine pelo menos seu primeiro idioma e tenha um conhecimento razoável de outros idiomas dos quais é encarregado. E agora abro outro parêntese.

O mercado brasileiro de traduções é pródigo em agências que oferecem traduções "com ótimo preço e a melhor qualidade" de/para 10, 15, 20 idiomas (pense numa agência brasileira que alardeia ter recursos para realizar versões duplas de inglês para georgiano, de mandarim para tailandês, de guzerate para zapoteca do istmo...). É IMPOSSÍVEL REUNIR E TER CONTROLE SOBRE RECURSOS QUE REALMENTE DOMINEM PARES DE IDIOMAS FALADOS POR MEIA DÚZIA DE PESSOAS (NEM TODAS TRADUTORAS) NO PAÍS. Agências que adotam essa prática são picaretas, estelionatárias, safadas e sem-vergonhas! #prontofalei

Voltando,

Se um gerente de projetos tiver dificuldade no domínio de um determinado idioma, ele deve recorrer a tradutores profissionais capazes de entregar um produto final cuja qualidade seja a mais "limpa" possível. Se a verba for curta, o problema de não dominar um idioma não deve ser empurrado para os tradutores. Às vezes, perder gerentes de projetos é melhor para o setor do que manter gerentes de projetos que tentam aparentar um determinado padrão que jamais conseguirão atingi-lo. Tradutores que não conseguem entregar trabalhos com qualidade satisfatória costumam ser "limados" do quadro de fornecedores das agências (e às vezes, do mercado). Os gerentes de projeto que não quiserem seguir pelo mesmo caminho têm duas (e apenas duas) opções: dominar o(s) idioma(s) dos projetos que gerenciam ou limitar radicalmente sua participação nas traduções e no controle de qualidade.

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