terça-feira, 22 de agosto de 2017

Traduções de segunda-mão, agências cretinas e clientes burros (ou mal-intencionados)

...e aí que tem outra história da agência de tradução ultra-mega-pluri-multi-certificada, associada, "parceirizada", especializada, juramentada e outras bossas, que vamos aqui chamar de Blaustein Traduções e Mirongas ("fazemos qualquer negócio").

Essa agência tem os vendedores de tradução, que "tiram os pedidos" (saca, que nem loja de ferragens?) dos clientes, mas não sabem a diferença entre um material de tradução e um saco de cimento ou um cento de parafusos.

Vai daí que os vendedores de tradução recebem um material em espanhol (porque o cliente disse que era em espanhol), mas uma avaliação ainda que perfunctória (ui!) do material dá todas as indicações de que se trata de um texto já traduzido do ITALIANO para o espanhol, e o cliente quer que o texto seja traduzido para o português.

Aí temos dois cenários:

1. O cliente não tem idéia da natureza do material que tem nas mãos.

2. O cliente sabe que o material original é em italiano, mas, sabendo que o custo da tradução do italiano para o português é maior, prefere usar a tradução em espanhol para que seja feita a "tradução da tradução" (e isso sempre dá merda).

Voltando aos vendedores de tradução: como eu disse, eles não sabem a diferença (ou pouco se importam com ela) entre um texto e uma saca de feijão ou uma arroba de boi gordo, e aceitam acriticamente a palavra do cliente.

O passo seguinte da "linha de produção" são os gerentes de projeto, responsáveis por preparar o material e distribuí-lo ("alocá-lo", ô palavrinha escrota...) aos tradutores. Num mundo ideal, os gerentes de projeto deveriam ser um pouco mais afiados intelectualmente, mas não... na Blaustein Traduções e Mirongas, os gerentes de projeto são jovenzinhos (sabem aquele meu papo de "geração pós-1990"?) semi-analfabetos, também incapazes de avaliar a natureza detalhada de um projeto.

Pois muito bem: o material chega à mão do pobre tradutor (uma criatura intelectualmente bem-aquinhoada e falante tanto do espanhol quanto do italiano), que percebe de cara a mironga, mas vai em frente.

Só que chega um ponto em que um termo não faz sentido. O texto faz referência a "las brújulas del eje dentado". Ora, pipocas. Desde que o latim vulgar virou espanhol na Hispania (e desde que a palavra chegou à região), "brújula" significa "BÚSSOLA". Sim, aquele treco que aponta sempre pro norte, inventado pelos chineses. Bom, não existe contorcionismo engenheirístico por onde um eixo dentado de uma máquina descascadora possa conter uma bússola.

O tradutor marca essa incoerência, mas segue em frente (sabe aquela manha de prova de "deixar as perguntas cabeludas pro final"?). Chega um ponto do texto onde finalmente a verdade se desvela: uma lista de peças em inglês e... SIM!!! ITALIANO!!! Num determinado ponto dessa lista, aparece o seguinte:

BUSSOLA PICCOLA ECCENTRICA CONTRORULLO / CLEANING ROLLER SMALL ECCENTRIC BUSH

Ói lá, fi! "Bussola"! Em inglês, "bush". Em português, "bucha". Mas alguém (ou algum Google) se contaminou pela semelhança (e eu dou meus tomates a cortar se não foi um brasileiro picareta) que traduziu "bussola" como "brújula".

Fiz esse revolteio todo e pincei esse exemplo para ensinar uma coisa aos cretinos analfabetos das agências de tradução:

NENHUM TRADUTOR QUE SE PREZA ACEITA FAZER TRADUÇÃO DE SEGUNDA MÃO ("TRADUÇÃO DA TRADUÇÃO") PORQUE O TEXTO ORIGINAL FICA "INVISÍVEL", E NÃO EXISTE GARANTIA NENHUMA DE QUE O "ORIGINAL" QUE CHEGOU À SUA MÃO FOI TRADUZIDO DE MANEIRA CORRETA DO VERDADEIRO ORIGINAL.